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« O modelo sul-africano... » Mais uma inovação do Presidente da república, José E. Dos Santos. Esta vez, para toda classe política e a sociedade civil, é um achado de mais. Um seixo na lagoa. Para os partidos políticos da oposição, desprevenidos (?) e mesmo para o partido no poder, é uma pílula amarga, uma desconcertante surpresa. Segundo observadores da política angolana, a proposta do presidente da república de decalcar as eleições presidenciais angolanas sobre o modelo sul-africano reabre, desnecessariamente, um debate que já era fechado.
Um consenso nacional interveio, semanas antes, após um intenso debate, em prol do sufrágio universal direto. Não há nenhuma razão válida que possa justificar uma nova orientação do presidente da república nesta matéria. A menos que razões obscuras estejam à base desta proposta presidencial. Por exemplo, a protecçâo dos seus amigos e familiares, favorecendo desta forma a perenidade do Mpla no poder. É um estratagema que está na moda actualmente no continente africano. Modificar a constituição ou elaborar uma constituição que impede qualquer alternância. O processo consiste, no seu inicio, a suscitar dúvidas nos espíritos dos dirigentes das organizações políticas, mesmo no seu próprio partido, esperando a última da hora para impor a sua vontade. Com a maioria na Assembléia nacional, o desfecho é sempre em seu favor. É uma manobra indelicada e de uma grave desonestidade intelectual.
No caso de Angola, suscitar dúvidas nos espíritos de toda classe política no momento em que a Comissão constitucional esforça-se encontrar compromissos que permitam finalizar a Constituiçâo, é politicamente incorrecto. É por esta razão que qualquer declaração pública contrária ao espírito do consenso é irresponsável e pérfido. A fragilidade das nossas instituições exige muita prudência nos propósitos e responsabilidade na abordagem de certas matérias. O presidente da república, tomando abertamente posição a favor do modelo sul-africano para a organização das presidenciais em Angola, comete um erro político. E o silencio dos seus compadres, que temam condená-lo ou desolidarizar-se publicamente, não é um consentimento. Prova: o embaraço de Kuata Kanawa (secretário do Mpla e muito favorável à formula clássica do sufrágio universal direto) nas suas últimas declarações aquando das suas intervenções nos meios de comunicação social. Não é o único. Outros membros do Mpla, entre os quais personalidades importantes, preocupam-se e interrogam-se sobre esta « saída » intempestiva do camarada presidente. Eles afirmam, guardando o anonimato, que o modelo sul-africano aplicado ao nosso país pode perturbar os fundamentos da república, a harmonia das instituições do Estado e atentar aos princípios republicanos. Alguns deles, cuja a fibra patriótica ainda é viva, vão mais longe na sua reflexão e incomodam-se do destino que reserva a proposta do camarada presidente aos candidatos independentes como Luisete Macedo Araujo ou Pinto de Andrade. A inscrição a um partido político tornar-se-ia obrigatória em Angola? Neste caso, que faz-se da liberdade de ser livre? Quando num partido a maioria diz uma coisa, e o seu presidente, uma outra, é a cacofonia.
Contudo, o debate está outra vez aberto. E mais uma vez, como não cesso de sublinhá-lo cada que tenho a oportunidade, a oposição deve ocupar o seu lugar neste debate. É deplorável constatar que desde a publicação da declaração de JES na imprensa, apenas um ou dois oponentes pronunciaram-se, timidamente, para protestar contra esta iniciativa do presidente da república. Todos os outros ficaram calados num ressoante silencio. Resignação? Mesmo o Mpda do Sr. Massunguna da Silva Pedro, conhecido para as suas reacçôes espontâneas, permaneceu silencioso. Ora, é em circunstâncias deste gênero/similares que toda oposição, de pé como um só homem, deve fazer entender a sua voz. Dormir sobre os seus louros e esperar sabiamente que aquilo resolve-se, é um risco que a oposição não pode correr. Os resultados das últimas legislativas estão lá para prová-lo. É por conseguinte imperativo que a oposição reage, ponha ao lado as suas diferenças e as suas ambições porque a hora é de diálogo. Encontrar-se, falar, determinar as convergências, avaliar as divergências, construir uma plataforma política, ai estão os desafios que esperam os oponentes angolanos ao Mpla.
« É fácil lutar contra um exército, mas não se pode lutar contra uma idéia cujo o tempo chegou » (Victor Hugo). Do parecer dos Angolanos, aqueles que mais sofrem do totalitarismo e do desprezo do Mpla, o tempo chegou de reunir-se em torno de um projeto, um projeto de justiça social. Continuar a persistir, por egoísmo, na desunião esperando ganhar as eleições sem o apoio dos outros, é uma ilusão. Uma suave ilusão.
É tempo que os partidos políticos da oposição começam evoluir na sua reflexão. A tarefa não é fácil, claro, mas quem quer, pode. Se os oponentes não apreenderem as oportunidades que se apresentam para alterar o curso da história do nosso país, as gerações futuras vão incriminar-os para o seu papel na desgraça de Angola e dos Angolanos. Olhar antes e longe... é uma garantia do sucesso.
Eduardo M. Scotty
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