Angola: Resgate dos valores morais, cívicos e culturais em agonia (I)
- Le Vendredi, 06 Mai 2011
Há meses atrás, o Comité Provincial do MPLA de Luanda lançou uma campanha de resgate dos valores morais, cívicos e culturais.
A iniciativa foi digna de louvor e deu-se parabéns ao referido Comité do Partido no poder, em especial ao seu primeiro secretário Bento Bento (BB), por ter pensado em recuperar os valores das culturas.
As pessoas acreditaram neste projecto e aguardaram com ansiedade que o comportamento da população angolana, especialmente dos habitantes da capital, comece a mudar no sentido de se reafricanizar.
Infelizmente, a medida que o tempo passa, o sonho torna-se cada vez mais um pesadelo. A iniciativa parece virar-se num nado porto. E o resgate de valores morais, cívicos e culturais de que tanto se falou entrou precocemente em agonia. Só um grande remédio pode acorda-lo e tira-lo do profundo coma em que se encontra.
As razoes desta morte lenta mas segura são sobejamente claras. Primeiro, a iniciativa pecou na escolha dos intervenientes. Não é qualquer pessoa que domina a cultura genuína de um povo ou melhor as culturas dos povos. Em cada sociedade ou melhor em cada etnia existe os arautos da cultura, os chamados Mpovi, em língua Kikongo.
Estes Mpovi, tradicionalistas, influentíssimas personalidades das culturas bantu, são eles que deveriam desempenhar em primeira linha a tarefa de recuperar os valores morais, cívicos e culturais dos povos das suas comunidades respectivas.
Aconteceu que os mpovi e outros conhecedores e dominadores das culturas bantu de diferentes etnias angolanas nem foram tidos nem achados neste gigantesco empreendimento.
Foram convidadas personalidades estranhas na matéria. Surpreende bastante a ausência das autoridades morais das culturais angolanas da cerimónia de lançamento da referida campanha que ocorreu no Centro de Conferências de Talatona.
Não se improvisa um herói. Cada etnia tem as suas reservas morais que são insubstituíveis.
Para resgatar os valores morais, culturais e cívicos dos povos, é preciso evitar os critérios políticos, ideológicos e partidários para a selecção dos intervenientes.
As famílias e as comunidades devem ser tomadas em consideração na educação e reeducação cívica e moral das crianças.
Quer se queira, quer não, as culturas dos povos têm seus donos, as suas vozes autorizadas em cada sociedade. Fora destes, o fracasso de recuperar estes valores morais eh inevitável. E estes encontram-se nas comunidades das diferentes etnias que compõem este território que se chama hoje Angola.
Como acontece actualmente. “A tout seigneur, tout honneur” – diz o francês ou ainda, como afirma uma sabedoria kikongo, “Owantu awonso dia bedianga, kansi ondi muntu nkaka” (Todas as pessoas comem, mas nem todas são gulosas).
Em segundo lugar, o MPLA pecou em não separar o trigo do joio. Significa isto dizer que devia definir bem o que entende por valores morais cívicos e culturais, evitando a promiscuidade de valores políticos, religiosos e tradicionais.
Como se depreende, a tarefa é multidisciplinar e como tal implica a participação de sectores, nomeadamente da Cultura, Educação, Comunicação Social, a Igreja, sociedade civil e a população.
Mais ainda, no resgate dos valores culturais, deve ter-se o cuidado de distinguir a ambiguidade entre Angolanidade e Africanidade.
Entende-se por Angolanidade, a cultura de assimilação colonial, a cultura luso-tropicalista, a cultura colonial; enquanto a Africanidade eh a cultura tradicional dos povos.
Não deve haver tabu neste empreendimento grandioso. Deve evitar-se as insinuações susceptíveis de minar a sua marcha, como isto é racismo, tribalismo, anti-patriotismo, etc.
Reitera-se, é preciso colocar o devido homem ao devido lugar (L’homme qu’il faut, à la place qu’il faut).
Um ministro da cultura deve ser alguém que domina profundamente as tradicionais dos povos, as suas línguas e seus nomes. De igual modo, o director de um Instituto de Línguas Nacionais deve dominar, falar e escrever fluentemente algumas línguas do país, começando pela sua, e, na Imprensa nacional, os responsáveis e apresentadores dos programas culturais e de entretenimento como Janela Aberta e outros devem conhecer profundamente as culturas do país.
Os programas culturais e de entretenimento não devem transformar-se em simples espaço de brincadeira de mau gosto e de obscenidade.
A comunicação social constitui um factor decisivo na recuperação ou revalorização das tradições. Ela não deve ser hesitante na abordagem dos aspectos culturais dos povos.
Para mais precisões, os programas radiofónicos, precisamente da televisão, merecem ser revistos.
As rádios devem ter programas dedicados à cultura, nomeadamente às canções e danças folclóricas angolanas.
Fala-se em culturas e tradições porque, os actuais países resultantes da conferência de Berlim (1885) são multiétnicos. E cada etnia tem a sua cultura, a sua tradição, em suma a sua civilização.
Apesar desta diversidade cultural, todas as culturas e tradições bantu têm um padrão comum. As diferentes culturas bantu têm uma coluna vertebral comum.
E bom ter-se também o cuidado de quando se fala em resgatar os valores morais, cívicos e culturais, definir o ângulo que se quer atacar.
Determinar se quer atacar os valores morais políticos, religiosos ou culturais. E nestes valores de que aspecto se pretende falar: comportamento, vestuário, língua, nomes, etc.
Os valores políticos traduzem-se no patriotismo, que eh o amor e respeito ah Pátria, o respeito aos símbolos nacionais e governo.
Os valores religiosos referem-se a fé, crença a Trindade (Deus, Jesus Cristo e Espírito Santo) para o cristianismo, ao Alah, Maomé e Buda, para o islamismo e Budismo, a Simão Kimbangu e Simão Toko, para o Kimbanguismo e Tokoismo, etc.
Os valores morais, cívicos e culturais bantu dizem respeito as culturas e tradições bantu, as línguas, nomes, usos e costumes e ao modo de ser, estar e de se comportar banto.
O resgate dos valores morais, cívicos e culturais devia ser feito em línguas nacionais, revalorizando-as ao mesmo tempo. Assim, matavam-se dois coelhos com uma só cajadada – como se diz.
No que diz respeito à língua, as famílias devem ter o cuidado de criarem seus filhos nas suas línguas. Pois, uma língua que não é falada pelas crianças tende a desaparecer, como acontece actualmente com a língua Kimbundu.
O Kimbundu é a língua falada pelo povo da etnia do mesmo nome que habita a faixa de terra estendida entre Luanda, Bengo, Kwanza-Norte e Malange.
Outrora, o Kimbundu era falado na capital de Angola (Luanda). Hoje, raras são as pessoas que o falam. Mesmo os próprios donos da referida língua têm dificuldades de a falar genuinamente.
As línguas nacionais devem ser ensinadas nas escolas localmente e faladas pelos governantes e pelas populações e usadas na função pública e privada a todos os níveis.
Por seu lado, os nomes traduzem a origem de uma pessoa. Os colonialistas viveram muitos anos nos países colonizados, mas não adoptaram os nomes dos colonizados e não abandonaram os seus nomes de origem. No caso preciso dos portugueses que colonizaram Angola durante cerca de cinco séculos (cerca de 500 anos), eles não adoptaram os nomes bantu deste país.
Para perverter os valores culturais bantu, os colonialistas impuseram aos indígenas os nomes europeus, dizendo que os nomes bantu eram de atrasados, cães, macacos, matumbos e sanzaleiros.
Criaram um complexo de inferioridade entre os autóctones, que foram incitados a rejeitar os seus nomes e a sua originalidade.
Hoje, pelos nomes, muitos Angolanos confundem-se com os europeus.
Aqueles que têm nomes bantu, estes (nomes) são adulterados de maneira a aportuguesá-los. Em vez de Nkanga (Kanga ou Canga, amarrar, prender, apreender, deter). Mpanzu por Panzo, Nkondo (Embondeiro) por Kondo ou Condo, etc.
Também deformaram a pronúncia dos nomes bantu.
Os nomes indígenas eram deformados durante o registo: Sita (Estéril) para Esteves, Nuni (Ave ou pássaro) para Nunes, Mvika para Viegas, Yingila por Ingila, etc. Trocam a ortografia e a fonética dos nomes bantu.
No que concerne a contradição entre Angolanidade e Africanidade, a primeira (angolanidade ou cultura de assimilação europeia) entende que uma família é formada pelos pais (pai e mãe) e seus filhos ou pelos pais e seus filhos não casados; enquanto para a segunda (africanidade), uma família é larga e matriarcal, integrando todos os membros oriundos de um mesmo ancestral materno.
O conceito bantu de família é diferente. Para a africanidade, uma família é um clã, Kanda, em língua kikongo.
Uma família bantu (kanda-singular, makanda-plural) não é composta apenas de pai, mãe e filhos. Ele é largo e matriarcal. É o conjunto de todos os descendentes por via matrilinear.
Uma família bantu é matriarcal, porque ela é feita pela mulher. Esta (a mulher) é a base de um clã. E o Kanda é dirigido por um chefe escolhido entre um membro que reúne os requisitos tradicionais necessários. O chefe do clã é chamado Nkulubundu.
O título de Nkulubundu é vitalício, pois ele é substituído só depois da morte.
Um pai não é da mesma família que os seus filhos. Os filhos pertencem à família da mãe.
O clã materno do pai é a família paterna dos filhos - Kise.
O clã paterno do pai é a família de Avó dos filhos - Kinkayi.
Todos os membros das famílias (materna e paterna) do pai são chamados Pai, tia ou avó, independentemente da sua idade.
Um irmão, sobrinho ou neto materno do pai é pai, pouco importa a sua idade.
Na ausência do pai biológico, quem assume a paternidade é qualquer membro do clã materno do pai, nem que seja um bebé no colo. Quando se pergunta pelo pai, apresenta-se o bebé. Desde que este seja irmão, sobrinho ou neto materno do pai.
É bom esclarecer que na cultura bantu, um irmão da mãe é tio, uma irmã da mãe é mãe. O irmão do pai é pai, a irmã do pai é tia. Tia em kikongo chama-se Tat´ankento (pai do sexo feminino). Só há tio do lado da mãe e tia do lado do pai.
Para os bantu, os filhos do irmão da mãe ou do pai são irmãos. A palavra primo não existe, é depreciativo. Os filhos da tia são pais e as filhas, tias.
Os filhos e as filhas de uma irmã são sobrinhos e sobrinhas, os de um irmão são filhos e filhas. Os filhos e filhas duma sobrinha são netos e netas maternos e maternas.
As comunidades onde as pessoas vivem (vata, belo, zunba) constituem igualmente famílias. São as famílias comunitárias.
Os membros das comunidades têm uma autoridade e jogam um papel fundamental na educação das crianças. As crianças asseguram a continuidade das tradições.
As tradições, os usos e costumes não praticados pelas crianças tendem a desaparecer.
As crianças asseguram a continuidade das tradições dos povos.
No que diz respeito a constituição de um lar, em muitas etnias bantu, o casamento tradicional (costumeiro) ou alembamento, é o matrimónio mais importante, porque é o que dá ao marido o poder e a categoria de genro.
É através do alembamento que um homem adquire os poderes de marido sobre uma mulher e de pai sobre os filhos.
Uma mulher não alembada é considerada solteira, assim como o homem que convive com ela, independemente do tempo e da quantidade dos filhos que fizeram juntos.
Mesmo que um homem e uma mulher se casem numa Conservatória e numa Igreja, sem o alembamento, eles são considerados solteiros e os filhos, ilegítimos. Na cultura banto, os matrimónios civil e religioso não dão o poder de genro a um homem.
Porque, apenas os sogros dão ao homem os poderes de genro sobre a mulher e de pai sobre os filhos. Os títulos de genro e pai não se oferecem gratuitamente, conquistam-se.
O incesto é proibido. Um matrimônio ou uma relação amorosa entre pessoas de mesmo sangue, entre irmãos chamados “primos”, é um crime. Se acontecer, os infractores serão obrigados a casarem-se e comer publicamente uma carne de cão, pois eles são comparados aos cães.
Um casamento só se realiza com o acordo dos pais, principalmente do chefe do clã ou “família” materno chamado “Nkulubundu”, a que acima se referiu.
Nunca um casamento ou alembamento se trata com os noivos (jovens) ou entre estes, secretamente, mas sim entre os responsáveis destes e na presença das testemunhas representadas pelos adultos, sábios da comunidade.
SIKAMA (Acordar, Despertar)
Por Makuta Nkondo






















