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Angolanos no Zimbabwe querem r

Angolanos no Zimbabwe querem regressar

ImageHarare - Era ainda menino quando os pais se viram obrigados a abandonar a terra natal, devido à guerra. Mulubale Leonardo Jamba saiu do Huambo, passou pela Zâmbia e entrou no Zimbabwe, então Rodésia, pela fronteira em Victoria Falls, isto em 1958. Anos volvidos, acompanhado pela família, foi viver na cidade de Bulawayo.

Em Bulawayo, Mulubale Leonardo foi forçado a trocar o apelido “Jamba” por “Ndlovu”. “Jamba” era considerado pelo regime branco como nome de animal.

Jamba perdeu o pai muito cedo e passou a viver somente com a mãe. Era jovem e já começava a sentir as dificuldades da vida. Decidiu então ingressar nas forças guerrilheiras que lutavam pela libertação do país. Participou na guerra de libertação do Zimbabwe de 1977 a 1982. Mulubale Leonardo sempre assumiu a nacionalidade angolana, apesar de não ser registado em Angola. Esta assumpção significou-lhe o fim de uma boa carreira profissional. “Depois que as pessoas descobriram que sou angolano, as minhas dificuldades aumentaram porque ninguém quis me dar emprego, nem mesmo de jardineiro”.

Mas a sorte acabou por bater à porta de Jamba, que começou a trabalhar como refinador numa fábrica de madeira, na altura dirigida por ingleses. A sorte não durou: volvidos poucos meses foi despedido por motivos que, até hoje, desconhece. “Naquela altura ninguém conseguia compreender o que se passava na cabeça dos brancos. Mesmo depois da independência do Zimbabwe, os brancos tratavam os negros como bem entendiam, principalmente aos que não tinham grandes opções de emprego. Nós nos submetíamos porque tínhamos famílias para sustentar”, rememora Mulubale.

Hoje com 50 anos de idade, Jamba, que é casado, pai de dois filhos e pastor, há 26 anos, da Igreja Apostólica de Jerusalém em Bulawayo, afirma que está a reviver o passado não mais com os brancos, mas com os próprios zimbabweanos. “Continuamos a ser maltratados. Falo particularmente dos angolanos. Nós nunca fomos bem vindos neste país. Aturávamos tudo porque não tínhamos para onde nos refugiar. Os nossos pais fugiram de Angola por causa da guerra. Hoje, com a paz, apelamos à ajuda do Governo angolano”.

Jamba sonha um dia, com a ajuda do Governo angolano, voltar à terra que o viu nascer e que só conhece de ouvir falar. Segundo ele, espera conseguir emprego numa fábrica de Madeira e, posteriormente, procurar pelos seus familiares na província do Huambo.

Busca de melhor emprego levou muitos à antiga Rodésia

O embaixador de Angola no Zimbabwe, Felisberto Monimambu, informou que a comunidade angolana no Zimbabwe é complexa, pela sua origem. A maioria não veio como refugiada, mas emigrou por razões económicas na era colonial, com o fito de ganhar mais dinheiro e viver num país colonial diferente do português.

“Isto aconteceu no tempo em que este país se chamava ainda Rodésia e vivia sob o colonialismo britânico. E os angolanos vieram sob contrato, para trabalharem nos caminhos-de-ferro, minas e noutros empregos que lhes garantia sobrevivência”.

Para além de Bulawayo existem também comunidades angolanas em outras cidades zimbabweanas, tais como Harare, Manicaland, Mashonaland, Central, Este, Oeste, Masvingo e Midland. Segundo o embaixador, o Zimbabwe alberga mais de 2 mil angolanos. “E este número não é exacto, porque ainda não terminamos a fase de registo. Muitos deles ainda falam línguas nacionais como o cokwe, umbundu, ngangela e luchaze.

Outros não esqueceram o português. Eles são provenientes das províncias do Cunene, Lundas Norte e Sul, Cunene, Moxico, Malanje e Huambo, entre outras”.A comunidade de hoje, disse o embaixador, já tem avós e bisavós. “É uma descendência que vai de cinco a seis gerações e muitos deles já são quadros do Governo zimbabweano. Apesar disso, desde 1945 até à data presente, a maioria nunca foi reconhecida como gente humana, que tem os seus direitos. São considerados como um povo sem pátria”, afirmou.

“Os angolanos não têm direito à identidade e a emprego, nem a matricular os seus filhos nas escolas como qualquer pessoa humana. Até mesmo depois da independência este tipo de tratamento continua. Mas temos de respeitar isso, porque cada país tem as suas estruturas e maneiras de considerar, as leis são deles e temos de respeitar. E assim vivem os angolanos até a data de hoje”.

Dada a situação, a maior parte dos angolanos decidiu regressar ao país, informou o embaixador. “Tivemos de fazer um trabalho de registo dos que querem voltar para Angola. Com o trabalho feito, fomos convencidos de que são mesmo angolanos, porque são filhos de pais angolanos que falam, ainda, as línguas da terra”.

Associação reúne comunidade em Bulawayo

Dario José da Rosa vivia na Vila Matilde, na província de Malanje. Fugiu para o Zimbabwe no dia 5 de Fevereiro de 1952, acompanhado da sua tia, irmã da mãe. Dario tinha 17 anos e concluíra a quarta classe. Hoje, com 73 anos, é mecânico de profissão, pai de três filhos e sonha voltar ao país para procurar pelos familiares, bem como conseguir emprego para os filhos.

“Já estou velho mas não perdi a esperança de encontrar pelo menos um parente. Ir a Angola tem muito significado para mim. Quero que os meus filhos conheçam o lugar onde nasci, por um lado. Por outro quero conseguir emprego para eles, porque a situação de vida no Zimbabwe é cada vez mais difícil, principalmente para os angolanos”, diz Dario da Rosa.

O mecânico informou que, até ao momento, a ajuda que receberam da Embaixada de Angola no Zimbabwe foi o tratamento da documentação. “Nós precisamos também de apoio financeiro. Precisamos de alimentação e meios de trabalho”.

Apesar de não ver nem ouvir programas de televisão e rádio angolanas, Dario está informado de tudo que se passa no país. Prova disso era a sua bandeira, que abanava de um lado ao outro, orgulhoso dos seis anos de paz de Angola. “Eu sei que Angola completou seis anos de paz, que vai realizar eleições em Setembro e que os maiores partidos são o MPLA, a UNITA e a FNLA. Sei, também, que estão a ser construídos muitos prédios desde que a guerra acabou”.

Ao contrário de muitos, Dario não esqueceu o português e ainda fala o kimbundu. “Eu nunca esqueci a língua portuguesa, porque sempre tive a esperança de, um dia voltar, à minha terra. Quando lá chegar tenho de falar português ou tropeçar no kimbundu para ser identificado”.
Licenciado em engenharia mecânica, José Samundombe é natural do Huambo, município do Bailundo. É o líder da comunidade angolana em Bulawayo.

Samundombe descobriu outros angolanos naquela província quando falava dos seus planos para conhecer o país. “Eu falava para os outros sobre a minha nacionalidade e assim descobri que não estava sozinho. E mais, que havia outros angolanos que falavam umbundo”.

De tanta convivência, disse, teve a ideia de reunir os angolanos numa associação denominada “Comunidade Angolana de Bulawayo”, isto em 1978. Mas essa comunidade só foi reconhecida pela embaixada angolana em 1996.

Actualmente, essa associação controla 210 angolanos. “Nós não temos o número exacto de quantos angolanos estão espalhados pelos municípios, por isso continuamos a passar a mensagem para que saibam que não estão sozinhos neste país”.

Segundo ele, os angolanos na comunidade vivem em união. “Nós vivemos como nas tribos, uns ajudam os outros.No nosso seio existem pessoas com várias profissões, com destaque para médicos tradicionais, engenheiros mecânicos e electrónicos. Apesar de não termos um fundo, quando existe um doente juntamos algum dinheiro para mandá-lo ao hospital na cidade”.

Registo comunitário na segunda fase em 2009

O Governo de Angola autorizou o registo da comunidade angolana no Zimbabwe. É assim que uma parte dos angolanos conta com cédulas, bilhetes de identidade e passaportes nacionais. O registo terá uma segunda fase, que vai atingir todos aqueles que não tiveram oportunidade na primeira. “Nenhum angolano vai ficar sem documentação. Só aquele que não quiser assumir a sua nacionalidade”, garantiu Felisberto Monimambo.

O embaixador revelou que a nacionalidade das pessoas que se dizem angolanas é descoberta através de inquérito, aquisição de documentos e de várias pessoas mais velhas. Durante a fase do registo houve tentativas de infiltração. “Muitos zimbabweanos quiseram passar-se por angolanos, para poderem organizar as suas vidas em Angola. Mas foram logo descobertos através dos inquéritos que temos feito para descobrir se são, verdadeiramente, angolanos ou não”.

Estão a ser criadas missões em todas as províncias deste país para facilitar o trabalho. Vai ser criado um centro de concentração durante o registo, para que aqueles angolanos que vivem distante possam repousar até ao dia da sua evacuação. Segundo o diplomata, vários meios técnicos, logísticos e de transporte foram disponibilizados para o registo.

Dadas as eleições que o Zimbabwe realizou, muito recentemente, e que Angola vai realizar em Setembro próximo, a reunião da comissão mista bilateral entre Angola e Zimbabwe foi adiada para o próximo ano. “Nós gostaríamos que fosse no primeiro trimestre, o mais cedo possível”, disse.

De acordo com o embaixador, o repatriamento é de livre vontade. Alguns angolanos conseguiram a nacionalidade e têm vida estável. Não pretendem deixar o Zimbabwe. Mas a maioria quer voltar”.

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