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ONU responsabiliza autores pelos massacres de Setembro

ImagemEm Setembro passado, o continente africano conheceu um dos episódios mais vergonhosos na sua história pós-colonial. Mais de 150 pessoas foram mortas na Guiné-Conackry quando participavam num comício da oposição.

O comício foi convocado para protestar contra a participação do capitão Dadis Camara nas eleições presidenciais previstas para Janeiro de 2010.

Chegado ao poder em Dezembro de 2008, na sequência de um golpe de estado, Dadis Camara afirmou reiteradamente que não participaria do escrutínio porque tal iria contra os seus princípios. Porém, à medida que o tempo foi passando ele foi-se afeiçoando cada vez mais ao poder e, em consequência, mudou de opinião. Passou a defender a ideia de que, como cidadão, não deveria ser privado da oportunidade de participar nas eleições.

Por isso é que ele reagiu mal aos milhares de cidadãos que se reuniram num estádio de futebol para protestarem contra a sua participação nas eleições. Dadis Camara quis dar um correctivo exemplar aos que se opunham à sua participação nas eleições presidenciais: soltou os seus guardas para reprimirem brutalmente os seus adversários. Autorizados pelo seu chefe, os guardas presidenciais não se fizeram rogados: dispararam, espancaram, torturaram e violaram à luz do dia centenas de mulheres que se encontravam entre os manifestantes.

Quando ordenou que a sua guarda investisse contra os manifestantes, Dadis Camara por certo que estava convencido que não há preço nenhum a pagar por acontecimentos desses em África. Aliás, se calhar ele terá pensado que o mundo nem sequer daria conta do morticínio. Enganou-se!

As Nações Unidas não só registaram a carnificina como decidiram indiciar o seu principal autor, o capitão Dadis Camara. Uma comissão de inquérito da ONU cita o capitão Dadis Camara como o, principal responsável pelo massacre de Setembro. A comissão propõe também a criação de um tribunal especial, já que descreve os acontecimentos de Setembro como um crime contra a humanidade.

Aos 47 anos de idade, o capitão Moussa Dadis Câmara poderá passar muitos anos da sua vida atrás das grades. Mas não irá sozinho. Ele pode ter de partilhar a cela com Toumba Diakite, o homem que o tentou matar depois que sentiu que seu superior hierárquico queria responsabilizá-lo sozinho pelos massacres de Setembro. O relatório da comissão de inquérito da ONU também cita Diakite.

A firme postura da ONU perante os responsáveis pelos massacres de Setembro é inédita em África. Tal não será certamente alheio ao facto de o inquérito ter sido conduzido quase exclusivamente por individualidades africanas. Até agora, o único presidente em exercício que fora acusado de crimes contra a humanidade é Omar el Bashir, do Sudão. Porém, ele não está atrás das grades porque sempre contou com a protecção de sectores muito poderosos do influente mundo árabe.

Também chefe de Estado em exercício, o capitão Dadis Camara dificilmente encontrará em África ou noutras partes do mundo apoios tão importantes para o livrarem da cadeia. Mas, aqui chegados, será interessante saber por que razão o mundo, de repente, decretou tolerância zero para com os líderes africanos que violam os direitos humanos.

Uma primeira explicação é o fim da guerra fria. Os massacres de Setembro desiludiram inclusivamente os apoiantes que Dadis Camara tinha em Washington e em Moscovo. Depois do morticínio, o líder da Guiné-Conackry perdeu os padrinhos que tinha nas duas mais influentes capitais políticas do mundo.

Mesmo os chineses, de quem Camara recebeu muito dinheiro nos últimos tempos, ficaram embaraçados com os excessos do seu novo amigo africano. Os chineses enviaram remessas e remessas de dinheiro a Camara para obterem autorizações para a exploração de minérios. O capitão Camara utilizou parte do dinheiro para contratar especialistas sul-africanos e israelitas para treinarem a sua milícia étnica.

O projecto de Dadis Camara de implantação de uma ditadura na Guiné-Conackry esbarrou também no facto de boa parte da população do país ser jovem. Com a morte do anterior ditador, Lansana Conte, os jovens esperavam poder, finalmente, usufruir as riquezas do, seu país.

A Guiné tem uma vastíssima diáspora, em parte porque o seu primeiro presidente, Sekou Toure, que liderou o país de 1958 a 1984, foi, pelo menos na última fase do seu reinado, um verdadeiro carrasco. Sekou Toure encarcerava ou matava os seus adversários sem piedade.

Muitos quadros brilhantes do país, incluindo o romancista Camara Laye, autor da famosa obra L'enfant Noir, tiveram que procurar segurança noutras latitudes. Por isso, os jovens opuseram-se aos últimos tempos do regime de Sekou Touré e ao tempo todo em que Lansana Conte esteve no poder.

Com os seus telefones celulares e câmaras de filmar, esses jovens foram registando todos os movimentos de Dadis Camara e sua turma. Através das várias organizações não governamentais criadas por guineenses que vivem na diáspora o mundo foi tomando conhecimento dos excessos de Camara e sua gente.

O «cerco» a Camara também é facilitado porque a, maior parte dos países da sub-região deseja criar uma zona cada vez mais estável. Países como a Costa do Marfim, Libéria e Serra Leoa, que têm fronteira com a Guiné, já passaram por muito caos e agora estão a recuperar. Uma Guiné em chamas iria desfazer todo o esforço que tem sido feito para encontrar a paz e estabilidade na região.

Ibn Chambers, secretário-geral da Ecowas, a organização dos países da África Ocidental, não esconde a sua aversão pelo capitão Moussa Dadis Câmara. Para ele, o líder guineense é um verdadeiro obstáculo à paz na região.

O «cerco» a Camara também pode ser, «inspirado» no exemplo de Charles Taylor, o antigo presidente da Libéria que agora se encontra na Holanda a responder perante o Tribunal Internacional de Haia por crimes contra a humanidade. O filho dele, Chuckie Taylor, encontra-se numa prisão americana a cumprir uma sentença de mais de 100 por ter torturado pessoas na Libéria durante o reinado do seu pai.

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Commentaire (1)

1. cunha Le 14/02/2010 à 21:48

ainda falta muito para o josé eduardo dos santos responder também ao tribunal internacional??
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Dernière mise à jour de cette page le 06/04/2010

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