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Quando comandante Jika foi morto, fiquei em Cabinda vivendo como se estivesse num inferno tropical, cercado de assassinos. Já não vi seu corpo,embora não estivesse,muito longe do local onde se dizia ter sido atingido por um obuz.
Foi uma morte que envolveu muitos mistérios, especulações, comentários e deixou alguma duvida entre pessoas atentas como eu. Alguns até, diziam que a curva descrita pelo abuz,só podia ter vindo de um canhâ regulado, por um grande estratega e perito de artilharia.
Enquanto outros,ficaram com impressão,de que o disparo,não poderia ter vindo de muito longe.Ainda outros diziam que havia gato.Se houve gato preto ou branco não sei.Verdade é que sua relação com comandante Pedalé,não era das melhores ,e se falava muito de que, comandante Jika tinha um irmão na FNLA ,enquanto outros diziam que o irmão estava na UNITA.
Outros chegaram a confundir,um sargento de nome" Binocas”,que fazia parte das forcas integradas representando na FNLA, como irmão de Jika. E quem era afinal o sargento Binocas?
Era um jovem "kalu-puro” como se costuma chamar aos naturais de Luanda, naquele tempo. Mulato magrito,sempre fardado á rigor,que até já o conhecia antes de ser militar,dos tempos que morei no Sambizanga.Binocas morou no Santo Rosa e sua ida para a FNLA,muitos não conseguiam compreender e nem tolerar.
Chegou mesmo haver um plano diabólico entre os FAPLAS para o eliminar ou prender,pouco antes da morte do C.Jika.Entretanto nunca houve a tão desejada unanimidade e assim Binocas escapou por um pouco.Binocas,apesar de militar da FNLA,gosava de uma grande simpatia por parte do setor feminino do Mpla o que talvez provocava ainda maior fúria aos intolerântes que o quiseram liquidar.
Mesmo estando a representar as FAPLAS,nas forças integradas,várias vezes conversei com Binocas acabando por o conhecer melhor.Era um sargento simples,fraterno e fazia transparecer no seu diálogo,um grande espírito patriótico.Alguns ficaram,dolorosamente surpreendidos,por não termos cumprido ás ordens em prendê-lo.
Deixaram de escalar-me para entegrar os patrulhamentos das forças integradas,passando apenas a fazer guarnição,da delegação,quer com o comandante Pedalé ,Eurico Gonçalves ou Bibi como chefes. Importa dizer que nesta altura, o comandante de unidade da qual eu pertencia (Base de S.Vicente), era o comandante Pedro Sebastião, comissários Bornito Sousa, Kassefú e monitores políticos Borges e Joy.
Entre os vários colegas lembro-me,do Bessa,Luís Alves,Luís Cadete,Nando da C.5 Eduardo,Abel, Filipe,Lourenço Dias,Bernardo,Laurindo Augusto,Jorge,Felix,etc. Mesmo como militar,conheci várias pessoas,muitos lugares,alguns mais humildes,outros mais ricos.A boate Fiote,o campo do tafy,o salão de farra enfrente a junta autonoma-de estradas,depois paviterra,o hospital central,ao lado a casa do Toto,onde parava a Lurdes e a Ludovina sempre que chegassem de Belize.
Ainda me lembro como se fosse hoje, que foi nesta casa, que namorei a Ludovina. Vi a azáfama já na altura ,das pessoas que tinham muito dinheiro.Vi as pessoas ao seu redor julgando-as o "bom" pelo capital que tinham.Vi verdadeira prostituição da dignidade,o quanto o ser humano pode ser venal.
Conheci também pessoas tristes e alegres,mas de tristeza e alegrias quase artificiais,pois os alegres assim o estavam por causa de algum ganho material,ao passo que os infelizes sempre estavam se sentindo.Vi crianças correndo no campo do tafy,trajando apenas com restos de retalho brincando elegantemente,com o rosto do que foi um dia sem comer, por detrás de uma suposta bola de trapo.
Várias vezes,me indignei com a pobreza material na qual eles viviam.Estive também com pessoas doces,outras amargas e falsas demais.Outras amarguradas; buscando sofregamente um sentido, ou então esvaziar o sentido da vida; eram como insentos atraídos pela luz que não entendiam,mas se deixavam matar,girando inutilmente ao seu redor.
Muito dessas pessoas, na sua maioria militares, tentei sinceramente ouvir, entender-lhes; com muitas quis estar muito mais tempo do que me deixaram estar. Jika era um chefe exemplar, amigo dos seus subordinados,não olhava idades e nunca se notava nele arrogância ou vaidade.
Com alguns vivenciei seus dramas,sofri com eles nos treinos militares ,naquelas tantas horas de montagem e desmontagem de tendas de acampamento.Com alguns percebi muito cedo , de que não tínhamos nossos pés longe da cova.
Fernando Vumby
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